Seca do Rio Solimões expõe ruínas que contam a luta pela história

Arquivo/Reprodução
Desvendando as marcas de resistência e memória na Amazônia
As águas do Rio Solimões, em seu histórico recuo, revelam vestígios de um passado que é tanto cultural quanto militar. O forte São Francisco Xavier, símbolo da presença portuguesa na região, ressurge com a seca severa que atinge o Amazonas, trazendo à tona questões fundamentais sobre nossa história coletiva e o legado de resistência de um povo.
A seca intensa enfrentada em Alto Solimões neste ano trouxe à tona um tesouro arqueológico inconspícuo por séculos: as ruínas do Forte São Francisco Xavier de Tabatinga. Esta fortificação, que remonta ao século XVIII, foi uma peça-chave na luta pela soberania territorial da coroa portuguesa, em um período marcado pela disputa com a Espanha.
Localizado na margem esquerda do rio, o forte, que havia estado submerso, agora se revela com o nível das águas em mínimos históricos. Na última sexta-feira (30), o Rio Solimões atingiu a menor cota já registrada, com -0,94 metro em Tabatinga. Essa seca é a maior ocorrida nos últimos 40 anos, levando o governo a decretar estado de emergência ambiental e de saúde pública.
O historiador Luiz Ataíde, que dedica duas décadas ao estudo da região, destaca a importância da descoberta e os vestígios encontrados, incluindo itens de louça e munição utilizados pelos militares que defenderam a área. “Quando o forte foi fundado em 15 de julho de 1766, era uma estrutura de taipa, que mais tarde ganhou alvenaria, representando a resistência e a luta pela segurança do território”, relata.
Os tratados que definiram a soberania da região, como o Tratado de Madri (1750) e o Tratado de Santo Idelfonso (1777), são lembrados como marcos da complexa disputa territorial. Para honrar o sacrifício dos que defenderam o forte, o Exército Brasileiro criou um memorial que recria parte de sua estrutura, acessível no Museu do Comando de Fronteira Solimões.
Esse forte, inundado em 1932, se mantém como um símbolo de resistência. Hoje, está inscrito no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), destacando a relevância de nossa história para as gerações futuras.
Assim, a seca do Rio Solimões não apenas expõe as ruínas do passado, mas também nos convida a refletir sobre a resiliência cultural e a importância da história na construção da identidade amazônica. É um momento para reassessarmos a relação entre a memória histórica e os desafios contemporâneos que a região enfrenta.



