Lula em São Gonçalo (RJ): não cabe representação de miliciano no Planalto
Tem coisa que os 80 anos não diminuíram em Lula. Nesta quinta-feira (24), em São Gonçalo, ele próprio tratou de enumerar algumas delas: disposição para percorrer o país, vontade de disputar cada voto e, sobretudo, motivos para seguir em frente. Falou da família, de Janja, da neta e do povo brasileiro como razões para continuar na estrada e trabalhar pelo país que acredita ser possível construir. “O Brasil é a minha causa”, resumiu.
“Se eu com 80 anos tô aqui pulando e sou candidato, por que um cara de 70 anos não precisa votar?”, provocou durante a caminhada no Centro da cidade, na Região Metropolitana do Rio. A idade virou, no discurso, menos uma conta de calendário e mais um argumento sobre participação. “O que leva você a ir votar é a causa. É o país que você quer.”
“Da mesma forma que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, o Palácio do Planalto não cabe à representação de miliciano lá dentro”
Luiz Inácio Lula da Silva
A dez dias do primeiro turno, Lula esteve nas ruas de São Gonçalo ao lado do candidato ao governo do Rio, Eduardo Paes (PSD), e dos candidatos ao Senado Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PSD). E não demorou a elevar o tom contra seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Logo no início do discurso, recuperou a defesa da soberania que havia levado à ONU e emendou uma crítica direta ao candidato. “Da mesma forma que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, no Palácio do Planalto não cabe a representação de miliciano lá dentro”, afirmou.
Na sequência, chamou atenção para o peso de cada escolha na urna. Ao falar sobre o Congresso, concentrou parte do discurso na disputa pelo Senado e pediu votos para os candidatos da chapa que o acompanha, lembrando que o parlamento é essencial para a governabilidade. “A gente não pode errar”, afirmou.
Lula procurou colocar essa escolha diante de algo que pudesse ser visto mais de perto. Citou investimentos e políticas federais que chegaram ao município mesmo com a prefeitura comandada por um adversário político. “Quando eu presido esse país, eu não olho o time do prefeito”, disse.
Na lista apresentada pelo presidente estavam 147 mil cirurgias eletivas, 71 mil teleconsultas, 225 mil exames, sete ambulâncias, 21 mil estudantes atendidos pelo Pé-de-Meia e recursos para a cultura. Lula mencionou ainda a construção de 11 mil moradias, obras de drenagem, pavimentação e urbanização e a nova sede do Instituto Federal da cidade. A partir daí, Lula deslocou a discussão de em quem votar para o que se espera construir com o voto. Pediu que cada eleitor pensasse no futuro dos filhos, dos netos e dos pais antes de chegar à urna. “Pensa o que você quer para o país. O que você quer para seu filho. Para o seu neto.”
A mesma ideia levou o presidente a outros dois temas de sua campanha. Lula voltou a defender o fim das bets, relatando histórias de pessoas que, segundo ele, acumularam dívidas ou tiveram a vida profundamente afetada pelo jogo. Também fez um apelo aos homens no enfrentamento à violência contra as mulheres e defendeu que meninos e meninas sejam educados, desde cedo, para uma relação de igualdade. “A luta em defesa da mulher não é dela, é nossa”, afirmou. Lula citou as medidas adotadas no âmbito do pacto contra o feminicídio e defendeu igualdade salarial, respeito à autonomia das mulheres e punição aos agressores.
A caminhada terminou com Lula olhando para os poucos dias que restam até o primeiro turno. Depois de falar sobre Congresso, políticas públicas, bets e violência contra as mulheres, conduziu o discurso até a escolha que será feita em 4 de outubro. Pediu mobilização nos dez dias restantes e colocou na urna o desfecho da mensagem que havia levado às ruas de São Gonçalo. “Esse país que a gente quer está na mão de vocês.”



