Amazônia vive seca alarmante e pescadores pedem por água

BBC News Brasil
A luta de comunidades ribeirinhas diante da crise hídrica sem precedentes
A Amazônia, berço de rica biodiversidade e lar de inúmeras comunidades ribeirinhas, enfrenta atualmente uma seca severa que ameaça o modo de vida dos pescadores locais. Com menos de dois metros de distância de alcançar níveis históricos de baixa, o rio Negro se tornou um símbolo de um problema maior que assola a região: a luta por água e recursos naturais em meio a mudanças climáticas drásticas.
Izabel Serrão, uma pescadora de longa data, não consegue compreender a mudança súbita em seu ambiente. Ao longo de 38 anos, ela observou os ciclos naturais do rio, mas a seca atual teve um impacto devastador e inesperado. “É o nosso costume ver o rio subir e descer durante o ano. Mas, neste ano, veio muito rápido a seca e pegou todo mundo de surpresa”, refrata Izabel, que agora se vê presa em terra, sem a possibilidade de pescar.
Dados da Defesa Civil do Amazonas indicam que o rio Negro já está a apenas 1,22 metros acima de seu nível histórico mais baixo. Com uma média de 20 cm de redução diária nas últimas semanas, as expectativas são sombrias. O professor Rogério Marinho, da Ufam, alerta que, embora haja uma esperança de que o nível do rio não atinja a profundidade de 2023, os eventos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes.
No Cacau Pirêra, onde 90% das famílias dependem da pesca, a situação é crítica. “Eu queria uma explicação para isso. Devolva nossa água quem tiver com a nossa água”, clama Izabel, refletindo o desespero de muitos que vivem na região. O sofrimento é compartilhado por Ronilson Silva, que, em sua última pescaria, conseguiu apenas 25 peixes após lançar a rede seis vezes.
A seca impacta não só a pesca, mas também as comunidades locais que enfrentam estado de emergência pela escassez de água e alimentos. O ministro de Desenvolvimento Social anunciou planos para um auxílio emergencial, mas ainda não há detalhes concretos sobre a implementação do programa.
Além disso, as queimadas aumentaram alarmantemente, com o Amazonas registrando 6.695 focos de incêndio em setembro apenas. A poluição resultante tem comprometido a qualidade do ar, com a população vivendo sob uma nuvem de fumaça e incerteza.
Apesar dos desafios, Izabel e Ronilson permanecem firmes em sua ligação com a terra e o rio. “Pescar é o que sei fazer. Preciso desse rio para continuar o nosso trabalho e sustentar minha família”, explica Izabel, um testemunho da resistência e resiliência das comunidades ribeirinhas diante da adversidade.
A seca que aflige a Amazônia não é apenas um fenômeno natural; é um grito de socorro das comunidades que dependem de seus rios. O que estamos vendo é um reflexo das mudanças climáticas que precisam ser urgentemente discutidas e combatidas. A preservação do meio ambiente e dos modos de vida tradicionais está em jogo, e o jornalismo desempenha um papel vital em dar voz àqueles que clamam por justiça e atenção em tempos de crise.



